Não dar desconto na Black Friday: coragem, contexto e escolhas no universo da beleza independente
Durante anos, a Black Friday foi, para mim (como para muitos empreendedores do setor de beleza) um momento de angústia e decisão. Já estive do lado de quem precisava rodar uma marca, garantir vendas, segurar o caixa e, ao mesmo tempo, honrar valores como o preço justo, o respeito aos fornecedores e a transparência com o consumidor. Hoje, à frente da Jaci, que é uma plataforma dedicada a disseminar informação e fortalecer o ecossistema da beleza consciente, vejo esse debate com camadas que vão muito além do marketing de ocasião.
Por que pequenas marcas não fazem grandes descontos?
O cenário é claro: grandes marcas jogam Black Friday com folga porque conseguem operar com margens brutas entre 63% e 75%. Isso só é possível graças ao volume, à negociação privilegiada com fornecedores e a uma estrutura verticalizada que tira do caminho muitos dos custos invisíveis ao pequeno empreendedor. Já as pequenas marcas, especialmente as independentes que apostam em produção artesanal e insumos limpos, trabalham com margens modestas, muitas vezes entre 20% e 40%. Quando parecemos ter “preços altos”, na verdade estamos mantendo o mínimo de sustentabilidade do negócio.investing+4
É uma realidade marcada não só pelo custo dos ingredientes e embalagens em pequenas tiragens, mas pelo pouco poder de barganha diante de grandes fornecedores e – não raro – por práticas de mercado que chegam a ser abusivas. “Não espremer fornecedores” se tornou bandeira para vários negócios, porque quem já esteve do lado do pequeno produtor sabe o quanto a negociação é desigual e cansativa. Essa assimetria faz com que o tal “grande desconto” das grandes marcas não seja algo viável para a maioria das pequenas marcas.
O ato de coragem de não fazer Black Friday
Precisamos reconhecer: não entrar no jogo dos descontos é, sim, um ato de coragem. Digo isso porque, quando ainda tocávamos nossa própria marca, na Jaci, mesmo acreditando no preço justo o ano todo, jamais tivemos coragem de cruzar novembro sem alguma promoção. Por quê? Porque as vendas simplesmente não aconteciam. O medo do estoque parado, da folha de pagamento, do boleto do fornecedor… Tudo isso pesa. Não julgo quem se esforça pra competir: por vezes, é o que mantém o negócio de pé em tempos difíceis.
Ainda assim, admiro profundamente as marcas que ousam se posicionar e buscar outros caminhos, seja reforçando o valor dos seus produtos, seja presenteando com brindes, apostando em experiências ou simplesmente sendo transparentes com o consumidor de que aquilo é o real preço do trabalho e da cadeia envolvida.
Estratégias conscientes e inovação no meio da Black Friday
Nesse cenário, marcas como a Irene Ri apostam em descontos progressivos e transformam cada compra em uma experiência de cuidado, brindando quem escolhe seus produtos. Para a fundadora, presentear é uma forma de criar vínculos reais e não apenas de estimular a compra impulsiva.
Já a Beriah Bioprodutos, além de oferecer descontos de até 30% e frete grátis, inova ao presentear clientes com a IA “Rótulo Green”, uma inteligência artificial própria que analisa ingredientes de cosméticos a partir de uma simples foto do rótulo, desvendando riscos e recomendando escolhas mais conscientes ao consumidor.
A Nua Honest Care, por sua vez, faz questão de manter a menor margem possível o ano todo, sem pressionar fornecedores. Para Mariana, fundadora da marca, não faz sentido criar ansiedade em pessoas que dependem do produto para cuidar da pele. “Prefiro premiar meus clientes fiéis com cupons de parcerias e presentes que reforçam nosso propósito”, conta. O posicionamento é claro: valorizar o cliente e o trabalho da cadeia é mais importante que seguir a lógica de promoções agressivas.
O que essas marcas possuem em comum é a busca por uma estratégia que respeite consumidores, parceiros e a própria história. Preferem perder uma venda imediata a abdicar do seu propósito. E é preciso também acolher e apoiar quem, por necessidade, decide entrar no Black Friday tradicional: cada marca conhece sua realidade melhor que ninguém.
Como alguém que já esteve dos dois lados – empreendedora e agora disseminadora de informação crítica para o mercado de beleza – defendo que o debate do preço vai muito além do desconto. É sobre educar, valorizar cada elo da cadeia e sustentar a honestidade em tempos de ofertas tentadoras.
No final das contas, Black Friday é só um recorte do desafio diário de ser independente no universo da beleza. Ter coragem para inovar, cuidar e se posicionar já é, por si só, um grande ato, e quem consome de pequenas marcas faz parte dessa mudança.
- https://br.investing.com/news/stock-market-news/chamada-de-resultados-loreal-apresenta-margens-recordes-e-crescimento-robusto-no-primeiro-semestre-93CH-1303541
- https://www.broadcast.com.br/pr-newswire/natura-co-latam-supera-resultado-do-ultimo-tri-e-alcanca-15-de-rentabilidade-no-1t-25/
- https://www.espressoapp.com.br/blog/margem-bruta-entenda-sua-importancia-e-melhore-seus-resultados
- https://sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/mercado-de-cosmeticos-do-brasil-e-um-dos-maiores-do-mundo,36578d4d928d0810VgnVCM100000d701210aRCRD
- https://agenciasebrae.com.br/economia-e-politica/com-700-novos-pequenos-negocios-abertos-por-dia-brasil-se-consolida-no-segmento-de-beleza/